Por Maria Cristina Brito*

Assim a fábula do texto de Fernando Arrabal se desenvolve em uma atmosfera mágica e mítica. Nesse universo íntimo e misterioso do ser humano vem à tona um contínuo jogo de natureza infantil que se desenvolve entre os personagens. Um jogo onde se encenam faces do ser humano e de sua profunda necessidade do outro. A importância e o medo da solidão. A importância do afeto. A inevitabilidade da memória. A culpa e o medo. A violência e o poder. Enfim, são vários aspectos da vida humana que são representados em jogos que apresentam uma natureza aparentemente infantil.
A montagem da Cia Pigmentus revela no espaço da cena essas nuances do texto de Arrabal de maneira profunda. A direção de Diêgo Deleon, contando com a Assistência de Direção e Produção de Marcela Jorge, resumiu o cenário a uma velha poltrona que funciona como o trono do Imperador. Esse cenário tem um caráter funcional e simbólico intenso pois é muito usado na luta pelo poder que se desenvolve ludicamente entre o Arquiteto e o Imperador. Os acessórios que aparecem em cena são trazidos de um outro espaço, de aparente neutralidade dentro da fábula que se desenvolve.
Seguindo esse pensamento, da importância do espaço vazio, é nos atores que se concentra a encenação. E a direção, segura como os atores, revela no espaço os meandros do texto de Arrabal.
Dessa forma, Ritcheli Santana e Beto Corrêa se relacionam em cena com seus corpos e suas vozes miticamente construídas. E com isso se afirma a busca da profundidade mítica do arquiteto e do imperador em suas respectivas vontades na existência. Vontades que se antagonizam, se igualam ou se complementam e que têm a oportunidade de serem exteriorizadas em gestos , sentimentos e palavras ludicamente.
Nesse sentido a montagem da Cia Pigmentus, que tive a oportunidade de orientar na Escola de Teatro da Unirio, que contou com a orientação vocal da Professora Jane Celeste Guberfain procurou desenvolver um estreito diálogo com aspectos da teoria do Teatro da Crueldade de Antonin Artaud. É assim que a montagem se desenha no espaço do mito e mais especificamente do mito do duplo, onde uma experiência de inter-subjetividade é traçada. Nesse contexto o Arquiteto e o Imperador desenvolvem uma relação de duplo, de alterego. E nesse espaço do duplo, fantasia e realidade se confundem.
Essa relação de duplo se faz revelar pelos atores de maneira extremamente poética onde as imagens constroem no espaço a escritura da cena. E dessa maneira o discurso da cena se estrutura sobre essa relação dialógica de personagens, no universo do duplo. Como a poética de Artaud O Teatro e seu duplo, onde o mito do duplo é estruturante de sua articulação teórica.
A encenação busca dessa forma revelar na atuação imagens da alma e dos personagens em sua relação de duplo. Ritcheli e Beto, como atores e atletas do coração, dominam e entregam sua musculatura afetiva à busca dessa escritura poética no espaço.
Assim, como no Teatro da Crueldade de Antonin Artaud, a Cia Pigmentus encena no espaço um processo de empesteamento, onde a ilusão e a fantasia conduzem os acontecimentos em atmosfera lúdica e infantil, enquanto revela a crueldade que é ontológica à vida.
Nessa perspectiva, no espaço metafísico da cena assistimos, à encenação de O arquiteto e o Imperador da Assiria e, observamos impactados às imagens criadas pelo grupo e que nos provocam uma interação com expressões míticas de nossos duplos no espaço. A encenação se constrói assim como uma integração de signos que estabelecem um diálogo no espaço. Esse diálogo de gestos, voz, cenário, figurinos, acessórios, atores, se processa de maneira a construir novos sentidos para significados já estabelecidos. E nesse momento a encenação penetra nitidamente naquilo que Artaud conceitua na sua poética da crueldade como a Anarquia. Instaurando o processo de Anarquia, isto é, a possibilidade de atribuir novos sentidos a signos com significados já estabelecidos.
E dessa forma a encenação do texto de Arrabal se escreve no espaço da cena dentro do universo da poesia e seus construtores , Diêgo, Ritcheli, Beto e Marcela Jorge se articulam na encenação de O Arquiteto e o Imperador da Assíria como escritores da cena , isto é, como poetas, autores de seus próprios versos no espaço.
Rio da Janeiro 14 de junho de 2014
*Maria Cristina Brito é Professora Associada da Gradução e Pós Graduação da Escola de Teatro da UNIRIO e orientadora da Cia. Pigmentus no projeto "O Arquiteto e o Imperador da Assíria".
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